ENTRE... LIVROS

Março 21 2011

 

O que dizem alguns poetas sobre a poesia

 

«A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta. Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens.»

 

Sophia de Mello Breyner Andresen,  Arte Poética,  In Geografia

 

«Os críticos podem dizer que determinado poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.» 

Fernando Pessoa (Bernardo Soares),  Livro do Desassossego

 

Os Livros                                                                                                         

 

 

Apetece chamar-lhes irmãos,

tê-los ao colo,                                                                     

afagá-los com as mãos,

abri-los de par em par,

ver o Pinóquio a rir

e o D. Quixote a sonhar,

e a Alice do outro lado

do espelho a inventar

um mundo de assombros

que dá gosto visitar.

Apetece chamar-lhes irmãos

e deixar brilhar os olhos

nas páginas das suas mãos.  

                          José Jorge Letria

 

                                                                                            

 

 

Romance ingénuo de duas linhas paralelas    

                          

Duas linhas paralelas

Muito paralelamente

Iam passando entre estrelas

Fazendo o que estava escrito:

Caminhando eternamente de infinito a infinito

Seguiam-se passo a passo

Exactas e sempre a par

Pois só num ponto do espaço

Que ninguém sabe onde é

Se podiam encontrar

Falar e tomar café.

Mas farta de andar sozinha

Uma delas certo dia

Voltou-se para a outra linha

Sorriu-lhe e disse-lhe assim:

“Deixa lá a geometria

E anda aqui para o pé de mim…!

Diz a outra: “Nem pensar!

Mas que falta de respeito!

Se quisermos lá chegar

Temos de ir devagarinho

Andando sempre a direito

Cada qual no seu caminho!”

Não se dando por achada

Fica na sua a primeira

E sorrindo amalandrada

Pela calada, sem um grito

Deita a mãozinha matreira

Puxa para si o infinito.

E com ele ali à frente

As duas a murmurar

Olharam-se docemente

E sem fazerem perguntas

Puseram-se a namorar

Seguiram as duas juntas.

Assim nestas poucas linhas

Fica uma estória banal

Com linhas e entrelinhas

E uma moral convergente:

O infinito afinal

Fica aqui ao pé da gente.      

                                              José Fanha

 

A bailarina                                                                                                                         

                                  

Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

 

Não conhece nem dó nem ré

mas sabe ficar na ponta do pé.

 

Não conhece nem mi nem fá

Mas inclina o corpo para cá e para lá.

 

Não conhece nem lá nem si,

mas fecha os olhos e sorri.

                                                                                                                                                                                                                         

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar

e não fica tonta nem sai do lugar.

 

Põe no cabelo uma estrela e um véu

e diz que caiu do céu.

 

Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

 

Mas depois esquece todas as danças,

e também quer dormir como as outras crianças.

                                                                      Cecília Meireles



                                                 (Os poemas e as ilustrações foram-nos sugeridos pela Professora Maria João Seco)

publicado por Biblioteca às 10:29

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